Pela revista À Mostra já sabíamos: entraríamos na sala Vianinha através de um canal vaginal. Meu Deus, pensei, como será isso? Com esse nome extenso meio sem nexo (Ameixa gorda de puro que te inunda de doçura) e mais o detalhe dessa entrada mirabolante, essa foi a peça que mais me chamou atenção. Por ter sido responsável pelos textos iniciais da revista, ou seja, não participei das páginas de “impressões”, me vali de meu direito de escolha: é sobre essa que escreverei.
Não sabia nada sobre o espetáculo além do que Thais (a aluna-jornalista que acompanhou os ensaios) contava em aula: nome, canal vaginal e universo feminino. Fui ver o resultado dessa mistura.
Vamos logo ao que, provavelmente, chama mais a atenção do leitor desse blog: o canal vaginal. Bem simples, eu diria. Meio curto de comprimento, meio cabana. Mas isso é detalhe. E dos pequenos. A peça de Cecília Carvalhal me provou ser muito mais que um nome e um canal vaginal.
Com cinco jovens e boas atrizes, a diretora mostrou um pouco dos muitos universos femininos que habitam nossa condição de mulher. Mostrou um pouco de mim, de você que está lendo (se você for mulher), das nossas mães, avós, amigas. Se não nos identificamos com aqueles relatos, por talvez não serem os nossos, conhecemos ou conheceremos uma mulher que se encaixa naquelas palavras, que vive imersa naqueles sentimentos interpretados. Independência, maternidade (precoce ou não), casamento, experiências héteros e homossexuais, os incômodos a que somos brindadas todos os meses... Enfim, histórias de mulheres, diferentes umas das outras, mas que sempre se enxergam como parecidas em algum momento de seus caminhos. Em meio à dança, textos leves e fortes, partes engraçadas e outras mais reflexivas, Cecília constrói um bonito mosaico feminino dentro do que todas nós temos em comum: o útero.
Que meus comentários não estraguem a peça dessa jovem formanda. Vai que Ameixa gorda de puro caldo que nos imunda de doçura ganha as peças dessa cidade? Meus aplausos torceram por isso.
Ah, leitor-espectador, não espere ameixas, e sim, melancias, em uma bonita performance que nos inunda de sorrisos.
Por Talita Duvanel
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