domingo, 30 de novembro de 2008

Tudo começa bem antes...

Peço aos leitores que leiam primeiro a matéria depois o vídeo.

É difícil para o público, acostumado ou não a ver apresentações de teatro, imaginar o trabalho que dá para montar todos os detalhes, até ficarem da forma que são vistos. Preparar todos os aspectos do cenário, figurino, áudio e luz requerem horas e horas de um trabalho que envolve, ao mesmo tempo, vigor físico e sensibilidade. Vigor para pregar, subir, carregar; sensibilidade para combinar, posicionar, distribuir. Depois, com tudo pronto, é a hora da realização do espetáculo que, na verdade, começou bem antes.





por Luis Filipe Valente, Bruno Gouveia e Pedro Henrique Pessoa

sábado, 15 de novembro de 2008

Melhor de Três

Eu poderia começar o texto com um lugar-comum do jornalismo cultural: "Noite de estréia com casa cheia". Poderia falar sobre o desempenho dos atores. Poderia até citar o depoimento de um espectador. Ocorre que - por razões paralelas - eu não apurei a quantidade de cadeiras ocupadas, não assisti à peça e não entrevistei ninguém. É, portanto, meu dever ético e jornalístico falar tão somente do que vi e ouvi.
Vinte minutos antes de começar a peça, algumas famílias ainda vagavam pelo campus da Praia Vermelha, perguntando pelo teatro: "Vianinha? Ih, rapaz, não faço idéia. Não seria Sujinho, não?" Questionou um provável veterano da Eco. Outros visitantes perguntavam pelo Escola de Comunicação - e eram repondidos com um olhar de desconfiança: "Olha, é aquele prédio ali, mas duvido muito que tenha aula a essa hora numa sexta-feira". Após algum esforço, todos chegam.
A peça, fruto da parceria entre o curso de Direção Teatral e o Colégio de Aplicação da UFRJ, é na verdade uma tripla apresentação. Três textos de Dias Gomes - O Berço do Herói, O Bem-Amado e O Pagador de Promessas - são encenados pelos estudantes do CAp, dirigidos por dois alunos da Direção Teatral.
Na porta, descobri que a maioria dos atores/alunos já haviam entrado no camarim. Tentei falar com algum familiar, mas não encontrei ninguém. Isso é um bom ou um mau sinal? Em frente ao banheiro, dois rapazes disputavam animadamente quem desejava a melhor sorte: "Merda pra você", "Torça o pé", "Quebre o braço", "Ampute a perna". Foram interrompidos pela abertura da sala de teatro.
Esperei que os atores da primeira peça saíssem para que eu os entrevistasse - "você não entende nada de teatro", me disse uma amiga atriz. "É lógico que eles vão ficar lá dentro para assistir à peça dos amigos". Resignado, esperei. De dentro da sala, ouviam-se risadas e aplausos esporádicos. Dias Gomes sabe cativar o público - ter alunos atuando também não é nada mau.
Na saída, duas senhorinhas conversavam no corredor. Uma delas, com ar de quem sabe das coisas, afirmou: "É claro que era Roque Santeiro! É só mudar os nomes que você não reconhece? Cruzes, Lúcia." A outra oscilava entre envergonhada e contrariada. Alguns espectadores mais animadinhos ainda passaram no bar da faculdade, esse sim o Sujinho. A recepção do Tião não chegou a ser calorosa: "Só tem Skol e já estamos fechando".
No mais, a noite transcorreu sem problemas, o público parecia contente na saída - mesmo depois da peça durar bem mais do que o previsto - e os atores empolgadíssimos com a perspectiva de mais duas apresentações. Merda para eles.


Pedro Simões

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Casa nova e em festa

João do Rio, Nelson Rodrigues, Dario Fo, Friedrich Dürrenmatt, Dias Gomes e criações dos próprios alunos estréiam a restaurada Sala Oduwaldo Vianna Filho na Escola de Comunicação (ECO), no campus da Praia Vermelha da UFRJ. É a Mostra de Teatro da UFRJ, que traz neste ano nove espetáculos, sempre às 20h, durante os meses de novembro e dezembro (conferir abaixo a programação completa). A primeira apresentação é na sexta, dia 14.

A peça que abre a mostra é Três dias, baseada em textos de Dias Gomes, uma produção do curso de Direção Teatral da ECO e do Colégio de Aplicação da UFRJ.

As montagens são dirigidas por formandos de Direção Teatral, curso que completa neste ano 15 anos de vida. Atores, produtores e outros envolvidos nas peças também cursam Direção Teatral. A Escola de Belas Artes faz o cenário e o figurino. Alguns estudantes trabalham em mais de uma peça ao mesmo tempo.

Os formandos Patrícia Teles e Gustavo Henrique, por exemplo, atuam um na peça em que o outro dirige. “Dizer que não há risco de confundir as coisas é mentira, mas nós temos afinidade e já fizemos isso na cadeira de Direção VI, afirma Gustavo Henrique, diretor de Um Chá (Gelado!) das Cinco e ator em HYXKO2. “Com ela (Patrícia), eu ganho uma voz de apoio na minha peça, e ser dirigido é um aprendizado para mim como diretor.”

Uma das atrações desta VIII Mostra é o espaço em que Henrique, Patrícia e os outros formandos vão encenar as suas criações. A Sala OduwaldoVianna Filho da ECO, além de pintada, teve o piso reformado e as divisórias retiradas. AVianinha é sala de teatro multiuso. A casa nova não é pouca coisa, diante do número reduzido de salas da ECO e das constantes reclamações dos alunos de teatro pela falta de lugares para ensaios.

Não à toa o conceito escolhido para a VIII Mostra é “território”. A definição de uma idéia-chave para cada mostra visa incentivar a reflexão entre os estudantes. A coordenadora do evento, Adriana Schneider, afirma que o conceito tem de remeter ao dia-a-dia do curso. “Direção Teatral vem se firmando dentro da ECO, o que tem a ver com território. Este é um momento de formatura, e os alunos vão sair de um espaço protegido para outro território. São vários os ganchos”, diz ela.

A coordenadora da VIII Mostra de Teatro da UFRJ falou, em entrevista, sobre o evento, a univesidade e reivindicações dos alunos. Confira:

À Mostra - Qual o seu papel como coordenadora da mostra?
Adriana Schneider - O meu papel é arranjar espaço para ensaios, coordenar as montagens, ajudar os produtores a organizar a verba recebida. Tudo isso é feito na cadeira de Legislação e Produção Teatral, que reúne os alunos produtores de cada peça. A produtora-executiva da mostra também participa das aulas.

À Mostra - Quanto tempo leva para produzir o evento?
Adriana - Logo quando o ano começa já temos que correr atrás de uma série de coisas, como patrocínio, por exemplo. O trabalho efetivo com os alunos começa no meio do ano, quando as peças são aprovadas, ou não, em uma disciplina chamada Projeto de Encenação.

À Mostra – Qual a diferença entre uma mostra teatral e mostra teatral universitária?
Adriana - A gente tem na universidade uma liberdade de experimentação invejável. O ambiente na universidade é muito fértil. Você pode trabalhar com textos que, fora da universidade, seria impossivel conseguir os direitos para montar de forma comercial. Por outro lado, é preciso bastante cuidado para produzir um espetáculo numa instituição. A maneira de lidar com a verba é diferente. Os organismos da universidade que se envolvem na mostra não têm muitas vezes o costume da produção teatral. A gente tem que se adaptar a realidade deles. Do ponto de vista criativo, é maravilhoso. Do ponto de vista administrativo, tem que se adaptar a realidade institucional.

À Mostra - Os alunos de Direção Teatral reclamam que não há espaços para práticas nem um teatro na Praia Vermelha. Como isso afeta a mostra e o curso?
Adriana - Os alunos hiperestimam um pouco a realidade lá fora. Nada é fácil conseguir. Espaço para ensaiar fora da universidade não é nem um pouco fácil conseguir. A gente fora da universidade ensaia em playground, em aparatamento. As dificuldades que a gente encontra aqui é um microcosmo do que vai encontrar lá fora. Na mostra deste ano, não se pode reclamar de falta de espaço para ensaio, porque tem pra caramba. A adiministração da escola abriu horários para ensaios. E sobre teatro, o que estamos conquistando com a sala Vianinha é um espaço multiuso, melhor para o aprendizado do que um teatro convencional, de espaço engessado.

À Mostra – Montar um elenco para uma peça, num curso de diretores, é uma dificuldade?
Adriana - É. Em geral os alunos tentam resolver a situação dentro do próprio curso, recrutando colegas do do curso. Tem estudantes que montam grupos de teatro entre eles durante a graduação. Quando não é possível, busca-se atores na UNIRIO (a algumas quadras da ECO), cola-se cartazes lá, por exemplo. A maior dificuldade é de ordem logística. Como o diretor não pode oferecer nada ao ator, nada impede que esse ator venha a abandonar o projeto por causa de outra oportunidade. Mas, de novo, isso é algo que acontece no mercado, quando há convites para novelas e filmes, por exemplo.

VIII Mostra de Teatro da UFRJ

Os espetáculos acontecem na sala Oduwaldo Vianna Filho, na Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ. No endereço:

Av. Pasteur, 250 – fundos

Praia Vermelha

Tel.:(21) 3873-5067


Três Dias

Textos de Dias Gomes (O Berço do Herói, O Bem-Amado e O Pagador de Promessas)
Equipe do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ
14, 15 e 16 de novembro, às 20h

201

Criação coletiva
Direção: Dulce Penna de Miranda
18, 19 e 20 de novembro, às 20h

Morte Acidental de um Anarquista

de Dario Fo

Direção: Débora Lira

21, 22 e 23 de novembro, às 20h

HYXKO2 ou O Senhor Precisa Mesmo Ir, Professor?

baseado em Aprendizde Feiticeiro, de Maria Clara Machado
Direção: Patrícia Teles
25, 26 e 27 de novembro, às 20h


Perdoa-me por Me Traíres

de Nelson Rodrigues
Direção: Michelle Ferreira
28, 29 e 30 de novembro, às 20h

A Visita da Velha Senhora

de Friedrich Dürrenmatt
Direção: Kelly Coli
2, 3 e 4 de dezembro, às 20h

Chá (gelado!) das cinco

de João do Rio
Direção: Gustavo Henrique
5, 6 e 7 de dezembro, às 20h

Ao Vento

de Diogo Liberano
Direção: Aline França
9, 10 e 11 de dezembro, às 20h

Ameixa Gorda de Puro Caldo que Te Inunda de Doçura

de Cecília Carvalhal
Direção: Cecília Carvalhal

12, 13 e 14 de dezembro, às 20h